Sensação

Às vezes me surge uma sensação que flerta com o onírico, com o resgate de memórias que só são acessadas a partir de certa ritualística, com um ímpeto de reviver determinadas percepções de corpo que só fizeram sentido em momentos muito particulares da vida. Às vezes sinto algumas dores surgindo nas contorções de músculos específicos do rosto ao perceber que uma frase tão repetida da música, tão comprometida com uma coordenação de movimentos do pescoço e das mãos, tão saturada dos mesmos desejos recorrentes vai chegar em alguns segundos. Às vezes me ocorre que somos vários, simultaneamente; que cada minúscula partícula de memória é capaz de se decompor mais e mais, se alargar beirando a ruptura de suas fibras aparentemente tão frouxas e mutáveis, de se manter enterrada como um rizoma e brotar como quem simplesmente abre a porta e volta para casa depois de dezenas de anos em uma caverna como se sequer uma noite de sono mal dormida separasse a ida e a volta (e note: as flores do vaso ainda estão intactas). Às vezes percebo que tudo está lá, tudo ainda está lá; que tudo permanece quase intocado, indelével, suspenso como o último instante antes do final de uma longa pausa que antecede o clímax da apresentação – que nunca ocorrerá, pois ele marcaria o caminho para o fim. E tudo se desintegraria, tudo se transformaria no elefante de Drummond ao final do dia, tudo se espalharia nos afetos e nos medos, tudo beberia sede, tudo comeria sonhos. Às vezes sinto que tudo precisa ir – lembrar de lembrar de deixar de lembrar – para que aquelas frestras, aquelas pequenas e inúmeras rachaduras em um pedaço de piso que ninguém vê, sejam preenchidas com uma matéria velha – porque revivida, reconstituída, regurgitada, costurada, revestida de mantos e protegida com rezas e unguentos – e se transforme em uma só peça, em um só chão que reabrirá caminhos para que aqueles pequenos seres, que só esperavam por uma oportunidade para retomarem seus ciclos, revisitem a ancestralidade de seus pés e caminhem como os que vieram antes, sintam cada mínima dimensão de descoberta em cada toque no solo, rememorem seus cânticos e atos mágicos e honrem seus medos, suas mortes e seus renascimentos em cada mínimo e incrível instante de suas vidas.

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