Poeminha à esquerda

Dos dias que – teimosamente – não findaram
esperei, em rubro definhar, palavras como pássaros.
Floreios vários, que falam de pessoas, ruas e fogos,
lembranças turbulentas dos que rosnaram plácidos.

Em torno de mim, pululam sonhos,
ocos, roucos, loucos – como um beijo cáustico.
Se não grito, não lido, não como,
tampouco esfrio em um choro ácido.

Mas veja… não paro. não nego; não amparo.
O que me resta é luta; é braço; é morte.
Aos que ditam ou que latem: a sorte;
pois de um longo sono, enfim, me separo.

Summud

Fuzis que pendem – habituais como suspiros -,
Procuram, atentos, qualquer rasa esperança.
O gás confronta o desalento e a confiança,
de quem nasce embalado ao som dos tiros.

Os sons – bombas, brados, evoés de um alaúde,
E os cheiros – fumo, suor, skunk e café,
Dançam sobre pedras – trôpegos mas de pé,
Nas memórias de quem resiste existindo: summud.

Encontrei sorrisos – não poucos onde estive.
Meu coração atônito apenas se cala:
Como entender tanta doçura?

Sob o jugo da estrela, observa Handala,
Em sua teimosa esperança – para tantos loucura,
o sonho de uma Palestina livre.

Sintetizaram a dor em laboratório

Imagine só; esses cientistas, viu?

Disseram que foram anos de pesquisa, que misturaram isso com não sei o quê. Sei que disseram que deu certo; e experiência com o tema nunca foi um problema – ela sempre esteve por lá, entre aquelas paredes alvas e desinfetadas. Algo que todo mundo sempre teve: quando não sente no pé, sente no outro. Fogem dela que é um horror; nunca entendi o motivo, pois ela sempre volta, mas enfim… Trabalhos publicados, platéias atentas e peitos estufados, coisa bonita de se ver. Foi, é verdade, sacrifícios aconteceram. Muitos. Mas vocês têm que entender, não é? É pelo bem da Ciência. C-i-ê-n-c-i-a. Aquela Grande Mãe que respeitamos e admiramos. Que nos acolhe quando é necessário e, é claro, só Ela sabe quando é necessário; Ela tem Suas Razões.

Por que escolheram a dor? Porque perceberam que é um experimento facílimo de se reproduzir. Pode-se repetir tantas vezes forem necessárias e sempre se obterá um resultado extraordinariamente perfeito, meticulosamente bem adequado às condições em questão. Além do mais, a dor possui uma infinidade de detalhes e características próprias das espécies diferentes de sujeitos que podem manifestá-la. Isto, nem preciso dizer, está muito bem documentado e catalogado, seguindo os mais restritos padrões de identificação para pesquisas futuras. Também não preciso lembrar que, apesar de tantos esforços para registrar tão ricas informações, os próximos pesquisadores que aproveitarão estas experiências prévias sobre o tema repetirão os testes para verificar se as dores continuam sendo percebidas das mesmas formas que antes. Novos olhares, novas impressões, não é verdade?

Bem, não posso deixar de mencionar o barulho que andam fazendo certos grupos que não entendem a beleza dos trabalhos que estes cientistas fazem. Aliás, sequer compreendem o grau de complexidade para reproduzir-se, em laboratório, algo que parece tão banal. Andam dizendo que precisam parar de perder tempo com esses estudos, de causar tanto sofrimento (olhe, eu nem deveria, mas abro parênteses para lembrar que devemos sempre enxergar este “sofrimento” a partir do olhar bondoso da Grande Mãe Ciência – o que é sofrimento em um momento, pode se transformar em progresso em outro, mas não adianta dizer isso para estas mentes jovens e cheias de ideologias… A Grande Mãe tem suas razões!), e outras coisas mais que prefiro nem comentar. Veja você que um dia destes me disseram “mas, então, por que não sintetizam o amor?”. Ri alto, é claro, diante de uma pergunta tão leviana. Eles não entendem que os cientistas precisam partir dos elementos mais básicos, mais concretos, mais simples, mais próximos (sem criar maiores envolvimentos, é claro!) para depois de muitos questionamentos, de muitos retornos, de muitos testes partir, enfim, para estruturas mais complexas.

E, afinal de tudo, que experiência nós temos com o amor?

O lugarejo

Contam que havia um lugarejo, no meio de um vale de difícil acesso, onde vivia um grupo de pessoas cujas origens remotavam há centenas de anos. Esse povo tinha uma crença que movimentava e dava suporte à vida do local, determinando o futuro dos que nasciam, o dia-a-dia dos que trabalhavam, as lacunas dos que questionavam. Todos os habitantes deste lugarejo acreditavam que, em algum momento remoto, seres bastante sábios haviam deixado um pingente de pedra incrustado no topo de um altar. Presos por este pingente, havia um sem número de correntes de diversos tamanhos e, na ponta destas correntes, várias pedras de aspectos e pesos distintos.

A imagem destes artefatos se transformou em um símbolo que inspirava as relações estabelecidas entre os indivíduos do lugarejo. Os Sábios, que eram considerados como descendentes diretos dos Seres Mais Antigos, tinham uma interpretação simples, direta e inquestionável (pois, é claro, eles eram os Sábios) em relação a este conjunto: eles mesmos, junto com todos os indivíduos que detinham o conhecimento mais aprofundado sobre os ritos que mantinham ordem e pureza na cultura do lugarejo, estavam claramente representados pelo pingente; nas pontas, as pedras de diferentes formas e tamanhos indicavam aqueles indivíduos que, com seu esforço diário e necessário, sustentavam, em diversos aspectos, toda a sociedade; e as correntes representavam o único meio de manter toda esta estrutura inteira em harmonia: o sacrifício.

Tudo no lugarejo funcionava perfeitamente bem. Um grande contingente de indivíduos, logo após o nascimento, era destinado ao trabalho forçado e sacrificados em nome da harmonia das Leis interpretadas pelos Sábios. Os demais habitantes do local, em função de relações diretas ou indiretas com os Sábios, não precisavam passar por provações, pois a hierarquia era considerada natural. Alguns poucos seres, vez por outra, incitavam questionamentos a respeito destas Leis, mas os Sábios eram sempre claros: tudo isto foi definido pelos Seres Mais Antigos, e sempre foi assim – é natural; se modificarmos, tudo irá ruir, toda a harmonia que vemos será destruída. E os revoltados calavam-se, e quedavam-se em seus labores habituais, convencidos de que, apesar de suas dores, tudo deveria continuar como estava.

Certo dia, após um momento de distração dos Sábios que guardavam o altar do pingente, uma criança se aproximou dos artefatos e, com sua curiosidade natural e sem entender, ainda, a sacralidade daqueles objetos, começou a manipulá-los. De repente, após alguns poucos movimentos, o pingente soltou-se e as correntes, que sustentavam as pedras, caíram. Os Sábios, então, perceberam o que havia ocorrido e correram para tentar recuperar a estrutura, mas já era tarde: tudo já estava no chão, e o próprio pingente havia se partido na queda.

Por vários anos, a partir deste episódio, um grupo cada vez menor de Sábios ainda buscava manter os mesmos símbolos antigos para preservar as antigas relações hierárquicas, antes encaradas como naturais, mas a notícia de que uma criança havia destruído – sem medo e de forma tão simples – as prisões que amarravam os sonhos dos indivíduos que se sacrificavam diariamente, marcou de forma indelével a mente de todos os que viviam no lugarejo e, aos poucos, as correntes mentais iam se partindo.

Contam que resquícios do pingente ainda podem ser vistos, que ainda existem Sábios, e que ainda há quem os ouça; mas as correntes – antes tão sólidas – não prendem mais ninguém.