O lugarejo

Contam que havia um lugarejo, no meio de um vale de difícil acesso, onde vivia um grupo de pessoas cujas origens remotavam há centenas de anos. Esse povo tinha uma crença que movimentava e dava suporte à vida do local, determinando o futuro dos que nasciam, o dia-a-dia dos que trabalhavam, as lacunas dos que questionavam. Todos os habitantes deste lugarejo acreditavam que, em algum momento remoto, seres bastante sábios haviam deixado um pingente de pedra incrustado no topo de um altar. Presos por este pingente, havia um sem número de correntes de diversos tamanhos e, na ponta destas correntes, várias pedras de aspectos e pesos distintos.

A imagem destes artefatos se transformou em um símbolo que inspirava as relações estabelecidas entre os indivíduos do lugarejo. Os Sábios, que eram considerados como descendentes diretos dos Seres Mais Antigos, tinham uma interpretação simples, direta e inquestionável (pois, é claro, eles eram os Sábios) em relação a este conjunto: eles mesmos, junto com todos os indivíduos que detinham o conhecimento mais aprofundado sobre os ritos que mantinham ordem e pureza na cultura do lugarejo, estavam claramente representados pelo pingente; nas pontas, as pedras de diferentes formas e tamanhos indicavam aqueles indivíduos que, com seu esforço diário e necessário, sustentavam, em diversos aspectos, toda a sociedade; e as correntes representavam o único meio de manter toda esta estrutura inteira em harmonia: o sacrifício.

Tudo no lugarejo funcionava perfeitamente bem. Um grande contingente de indivíduos, logo após o nascimento, era destinado ao trabalho forçado e sacrificados em nome da harmonia das Leis interpretadas pelos Sábios. Os demais habitantes do local, em função de relações diretas ou indiretas com os Sábios, não precisavam passar por provações, pois a hierarquia era considerada natural. Alguns poucos seres, vez por outra, incitavam questionamentos a respeito destas Leis, mas os Sábios eram sempre claros: tudo isto foi definido pelos Seres Mais Antigos, e sempre foi assim – é natural; se modificarmos, tudo irá ruir, toda a harmonia que vemos será destruída. E os revoltados calavam-se, e quedavam-se em seus labores habituais, convencidos de que, apesar de suas dores, tudo deveria continuar como estava.

Certo dia, após um momento de distração dos Sábios que guardavam o altar do pingente, uma criança se aproximou dos artefatos e, com sua curiosidade natural e sem entender, ainda, a sacralidade daqueles objetos, começou a manipulá-los. De repente, após alguns poucos movimentos, o pingente soltou-se e as correntes, que sustentavam as pedras, caíram. Os Sábios, então, perceberam o que havia ocorrido e correram para tentar recuperar a estrutura, mas já era tarde: tudo já estava no chão, e o próprio pingente havia se partido na queda.

Por vários anos, a partir deste episódio, um grupo cada vez menor de Sábios ainda buscava manter os mesmos símbolos antigos para preservar as antigas relações hierárquicas, antes encaradas como naturais, mas a notícia de que uma criança havia destruído – sem medo e de forma tão simples – as prisões que amarravam os sonhos dos indivíduos que se sacrificavam diariamente, marcou de forma indelével a mente de todos os que viviam no lugarejo e, aos poucos, as correntes mentais iam se partindo.

Contam que resquícios do pingente ainda podem ser vistos, que ainda existem Sábios, e que ainda há quem os ouça; mas as correntes – antes tão sólidas – não prendem mais ninguém.