Caixa

no fundo da gaveta havia um cheiro. peguei-o com muito cuidado para que ele não fugisse antes de resgatar alguma imagem esquecida que poderia me sufocar e guardei-o em uma pequena caixa. alimentei-o com páginas de um diário velho, algumas lágrimas recentes e fotos que me trazem memórias fabricadas de uma infância distante o suficiente para que eu não seja capaz de lembrar sem ter que criar minhas próprias versões. nos dias ensolarados, deixava a caixa perto de um pé de alfavaca, igual ao do quintal da casa da minha família. à noite, ela dormia em cima da pilha de discos de vinil. ao visitar meus velhos parentes que contavam histórias de cadeiras de balanço, levava a caixa no fundo da mochila, como uma espécie amuleto secreto. um dia, percebi que era hora de abrir aquele objeto. fechei as portas e deixei as luzes da casa no mínimo, o suficiente apenas para que eu enxergasse meu próprio medo, e abri a caixa. de seu interior, frustrando minhas grandes expectativas, saiu um cheiro agradavelmente suave de madeira queimada que não me remeteu a nada familiar. larguei o objeto em qualquer lugar e adormeci. sonhei com pajés e pretas-velhas; matas e sargaços; danças e chás; e desse dia em diante, sempre que me falta chão, o cheiro da caixa me acolhe e me abraça.

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