Música

desde que me mudei para cá, algo me chama a atenção no começo da madrugada. quando o silêncio começa a tentar preencher os cansaços do dia, ouço uma espécie de música muito distante; tão distante que parece, de fato, tocar dentro de mim, pianissisimo. às vezes me sento no meio da cozinha, completamente atento, retesando os músculos ao redor dos olhos e tentando acompanhá-la. em vão; ela some. assim que me dou por vencido, ela parece sorrir – sorrateira – e me convida novamente a apenas contemplá-la sem encará-la diretamente; como os braços dos namorados que se sentem sem tocar-se. eventualmente, ela pulsa rapidamente; muda de intensidade como que ziguezagueando no ar; noutras vezes, parece se extasiar com longas e tensas [para mim] pausas, seguidas de vagas e pesadas sombras de som. nunca vem como gato faminto; surge como quem já se satisfez, mas prefere arrastar as horas, fingir que não precisa voltar e acaba ficando mais um pouco. passou-se o tempo e aprendi seus ritmos, seus humores, seus caprichos; suas febres, seus rompantes, seus cansaços; e, em tudo isso, ouvi seus olhares, escutei suas feridas, acolhi suas dissonâncias. um dia, enfim, o silêncio. abafado, oco, se diluindo aos poucos – o silêncio da despedida. um baixo relevo nos ouvidos já acostumados com a companhia de quem me ensinou a ouvir meus próprios ecos e, com leveza e desprendimento, apenas deixar a música seguir, ocupando espaços, desaparecendo e ressurgindo em outros tons.