Foto

uma foto minha, de muitos anos, veio me visitar hoje. largou as sandálias, foi de um fôlego só até a cozinha e mexeu displicentemente nos papéis da mesa, como um desses ventos de agosto. sentou-se, me esperando; sentei-me. olhou para cada poro do meu rosto como se fosse produzir um detalhado relatório em seguida; percebeu os vincos da pele que, ao retornar para seu lugar depois de visitar tantos desejos e sustos, sempre marca caminhos para os eus que virão; segurou minhas mãos, com a firmeza e o cuidado de uma parteira e disse apenas: “eu não; você”. foi embora deixando um cheiro de alfazema e um gosto daquele café que faço todas as manhãs enquanto penso no que serei naquele dia.