Calçada

… e, de repente, olhou para a calçada atentamente, concentrando-se nos pequenos seres que habitavam as redondezas das graminhas entre as frestas do cimento rachado, e percebeu que havia mais vida ali que em seus últimos 12 meses. Soltou o ar rapidamente, curvando as costas, como quem se livra de várias sacolas plásticas pesadas que deixam marcas nas mãos, e começou a andar à deriva. Percorreu a rua em declive com passos quase desordenados, como se os dois pés não respondessem ao mesmo centro de comando mas, ainda assim, tivessem ensaiado tantas vezes uma tentativa de fuga que, mesmo com certo esforço, pudessem lembrar da sequência correta para situações de emergências. o ar corria rápido sobre sua pele, circulando por dentro de sua roupa, esfriando o suor e fazendo-o pensar em saltos e vôos; em quedas livres. de esquina em esquina, seus olhos ficavam mais distantes, seus passos mais rápidos, seus pensamentos voltavam cada vez mais no tempo. parou; não, foi parado. o ônibus não conseguiu frear. seu corpo realizou um salto, um vôo. caiu livre. seu rosto encostou, de lado, no chão quente; sua boca ficou entreaberta, com uma expressão quase pateticamente feliz, e seus olhos passaram aqueles últimos segundos admirando toda a beleza daqueles pequenos seres – alheios aos gritos e às deselegantes buzinas – que davam voltas e voltas em torno daquelas graminhas entre as frestas do cimento rachado.