Sede

F despertou e tinha sede. Não uma simples sede, saciável com sonhos, paisagens ou galanteios. F tinha sede de algo que beirava o expurgo eterno e o deserto; o grito com todos os tendões e o desejo de transformar-se em chuva; o canto de todos os copos que repousam na mesa após o último gole e a placidez de quem afunda em um lago, fecha os olhos suavemente e apenas aceita. F bebeu sua água lentamente, umedecendo os lábios e criando uma fina e temporária camada de proteção; um dique entre aquelas ilhas externas de autorreferências e seu pequeno santuário de vidro, pólvora e silêncio. Com olhos entreabertos e 3 ou 4 goles, sorriu; engoliu aquele mundo inteiro, que sempre foi apenas seu, e deixou-o repousar no fundo do estômago vazio à espera do próximo e tão precioso intervalo entre os momentos de sono e desencanto.