Sintetizaram a dor em laboratório

Imagine só; esses cientistas, viu?

Disseram que foram anos de pesquisa, que misturaram isso com não sei o quê. Sei que disseram que deu certo; e experiência com o tema nunca foi um problema – ela sempre esteve por lá, entre aquelas paredes alvas e desinfetadas. Algo que todo mundo sempre teve: quando não sente no pé, sente no outro. Fogem dela que é um horror; nunca entendi o motivo, pois ela sempre volta, mas enfim… Trabalhos publicados, platéias atentas e peitos estufados, coisa bonita de se ver. Foi, é verdade, sacrifícios aconteceram. Muitos. Mas vocês têm que entender, não é? É pelo bem da Ciência. C-i-ê-n-c-i-a. Aquela Grande Mãe que respeitamos e admiramos. Que nos acolhe quando é necessário e, é claro, só Ela sabe quando é necessário; Ela tem Suas Razões.

Por que escolheram a dor? Porque perceberam que é um experimento facílimo de se reproduzir. Pode-se repetir tantas vezes forem necessárias e sempre se obterá um resultado extraordinariamente perfeito, meticulosamente bem adequado às condições em questão. Além do mais, a dor possui uma infinidade de detalhes e características próprias das espécies diferentes de sujeitos que podem manifestá-la. Isto, nem preciso dizer, está muito bem documentado e catalogado, seguindo os mais restritos padrões de identificação para pesquisas futuras. Também não preciso lembrar que, apesar de tantos esforços para registrar tão ricas informações, os próximos pesquisadores que aproveitarão estas experiências prévias sobre o tema repetirão os testes para verificar se as dores continuam sendo percebidas das mesmas formas que antes. Novos olhares, novas impressões, não é verdade?

Bem, não posso deixar de mencionar o barulho que andam fazendo certos grupos que não entendem a beleza dos trabalhos que estes cientistas fazem. Aliás, sequer compreendem o grau de complexidade para reproduzir-se, em laboratório, algo que parece tão banal. Andam dizendo que precisam parar de perder tempo com esses estudos, de causar tanto sofrimento (olhe, eu nem deveria, mas abro parênteses para lembrar que devemos sempre enxergar este “sofrimento” a partir do olhar bondoso da Grande Mãe Ciência – o que é sofrimento em um momento, pode se transformar em progresso em outro, mas não adianta dizer isso para estas mentes jovens e cheias de ideologias… A Grande Mãe tem suas razões!), e outras coisas mais que prefiro nem comentar. Veja você que um dia destes me disseram “mas, então, por que não sintetizam o amor?”. Ri alto, é claro, diante de uma pergunta tão leviana. Eles não entendem que os cientistas precisam partir dos elementos mais básicos, mais concretos, mais simples, mais próximos (sem criar maiores envolvimentos, é claro!) para depois de muitos questionamentos, de muitos retornos, de muitos testes partir, enfim, para estruturas mais complexas.

E, afinal de tudo, que experiência nós temos com o amor?