Fantasia

no primeiro dia era raro ver alguém com uma expressão que fugia do riso frouxo ou do misto de um estranhamento com o medo de algo vagamente ameaçador. os professores se esforçavam para buscar alguma normalidade nas aulas mas era difícil competir com aquela cena: em meio ao monótono padrão escolar, um aluno vestia-se de galinha. todo o tipo de pergunta era direcionada a ele, que limitava-se apenas a franzir alguns músculos do rosto, virando a cabeça levemente para o lado, e dar com os ombros em uma atitude de clara aceitação de um destino que parecia estar além de sua vontade. gritos, apelidos, tudo o que adolescentes são capazes de produzir verbalmente em uma cena absolutamente esdrúxula, conduzida por alguém em um estado absolutamente passivo. uma longa manhã.

no segundo dia nosso herói galináceo apresentou-se vestido de banana. os risos continuavam, mas o estranhamento ganhou uma forma mais longa. o que antes não fazia qualquer sentido agora parecia ter um certo mistério, uma razão oculta qualquer – por mais distante que fosse. sentou-se naturalmente, com a mesma expressão de cômica naturalidade – não sem um olhar preocupado, porém resignado – e resistiu aos gritos, às bolas de papel, aos impropérios. nenhuma resposta.

o terceiro dia foi a vez do helicóptero. os alunos se dividiam entre aqueles que continuavam apenas gritando e atirando objetos, os que estranhavam e pensavam em inúmeras hipóteses – que passavam por patologias, promessas, um personagem de algum programa de tv – e os que começavam a se divertir rapidamente com a fantasia do dia mas que, em instantes, retomavam suas rotinas. pousou em sua cadeira e seguiu o dia como sempre.

o ano escolar inteiro passou dessa forma sem que uma roupa sequer fosse repetida. os poucos – cada vez mais raros – alunos que ainda se importavam com aquele personagem faziam apostas sobre as próximas escolhas. nenhum dos seus colegas procurava se aproximar para perguntar sobre outro assunto que não tivesse relação com as roupas e, como ele não respondia nada sobre esse tema, nenhuma outra palavra foi trocada durante todo esse tempo.

último dia do ano letivo. ele entra na escola e, para espanto de todos, está vestido com a farda da instituição – impecável, como se fosse o primeiro dia de um aluno padrão. alguns comentários de espanto, tentativas de abordagem (em alguns casos um tanto agressiva) mas, para surpresa de todo mundo, ele não parava de rir. não um sorriso simples, um levantar discreto de canto de boca com os olhos levemente fechados – ele gargalhava. um riso incontido de quem mal conseguia coordenar os movimentos enquanto andava. no início alguns dos alunos tentaram aproveitar do momento rindo também, mas caçoando de alguma forma. seu riso parecia passar por cima de todos os argumentos e neutralizava qualquer tentativa de abordagem. todos se calaram e tentaram seguir o dia como se nada estivesse acontecendo. ele ria e ria e ria. ele estava, enfim, fantasiado.

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