Vila

É verdade, somos de outro lugar; bem longe daqui, inclusive.
Uma vila pequena, com silêncios largos e árvores que brotam onde querem.

Quatro ou cinco casas tem gente mais velha, de um tempo em que o tempo pouco importava.
Na maior parte das outras, choros curtos marcam tempos que só enxergam começos.

Lá, sonhamos uns com os outros.
Adoecemos, mas nunca de solidão.

Nossos olhos enxergam juntos e vêem cada intenção, cada gota de suor, cada sorriso que surge – lentamente – à medida em que as pálpebras baixam.
Pisamos no chão e sentimos o vento cobrir nossos pés com grossa poeira, como se quisesse juntar tudo novamente.

Sim, gostamos da vida na vila; e, antes que você pergunte: sempre aceitamos novos moradores.
O problema é que não sabemos mais como voltar para lá.

Caixa

no fundo da gaveta havia um cheiro. peguei-o com muito cuidado para que ele não fugisse antes de resgatar alguma imagem esquecida que poderia me sufocar e guardei-o em uma pequena caixa. alimentei-o com páginas de um diário velho, algumas lágrimas recentes e fotos que me trazem memórias fabricadas de uma infância distante o suficiente para que eu não seja capaz de lembrar sem ter que criar minhas próprias versões. nos dias ensolarados, deixava a caixa perto de um pé de alfavaca, igual ao do quintal da casa da minha família. à noite, ela dormia em cima da pilha de discos de vinil. ao visitar meus velhos parentes que contavam histórias de cadeiras de balanço, levava a caixa no fundo da mochila, como uma espécie amuleto secreto. um dia, percebi que era hora de abrir aquele objeto. fechei as portas e deixei as luzes da casa no mínimo, o suficiente apenas para que eu enxergasse meu próprio medo, e abri a caixa. de seu interior, frustrando minhas grandes expectativas, saiu um cheiro agradavelmente suave de madeira queimada que não me remeteu a nada familiar. larguei o objeto em qualquer lugar e adormeci. sonhei com pajés e pretas-velhas; matas e sargaços; danças e chás; e desse dia em diante, sempre que me falta chão, o cheiro da caixa me acolhe e me abraça.

Foto

uma foto minha, de muitos anos, veio me visitar hoje. largou as sandálias, foi de um fôlego só até a cozinha e mexeu displicentemente nos papéis da mesa, como um desses ventos de agosto. sentou-se, me esperando; sentei-me. olhou para cada poro do meu rosto como se fosse produzir um detalhado relatório em seguida; percebeu os vincos da pele que, ao retornar para seu lugar depois de visitar tantos desejos e sustos, sempre marca caminhos para os eus que virão; segurou minhas mãos, com a firmeza e o cuidado de uma parteira e disse apenas: “eu não; você”. foi embora deixando um cheiro de alfazema e um gosto daquele café que faço todas as manhãs enquanto penso no que serei naquele dia.

Música

desde que me mudei para cá, algo me chama a atenção no começo da madrugada. quando o silêncio começa a tentar preencher os cansaços do dia, ouço uma espécie de música muito distante; tão distante que parece, de fato, tocar dentro de mim, pianissisimo. às vezes me sento no meio da cozinha, completamente atento, retesando os músculos ao redor dos olhos e tentando acompanhá-la. em vão; ela some. assim que me dou por vencido, ela parece sorrir – sorrateira – e me convida novamente a apenas contemplá-la sem encará-la diretamente; como os braços dos namorados que se sentem sem tocar-se. eventualmente, ela pulsa rapidamente; muda de intensidade como que ziguezagueando no ar; noutras vezes, parece se extasiar com longas e tensas [para mim] pausas, seguidas de vagas e pesadas sombras de som. nunca vem como gato faminto; surge como quem já se satisfez, mas prefere arrastar as horas, fingir que não precisa voltar e acaba ficando mais um pouco. passou-se o tempo e aprendi seus ritmos, seus humores, seus caprichos; suas febres, seus rompantes, seus cansaços; e, em tudo isso, ouvi seus olhares, escutei suas feridas, acolhi suas dissonâncias. um dia, enfim, o silêncio. abafado, oco, se diluindo aos poucos – o silêncio da despedida. um baixo relevo nos ouvidos já acostumados com a companhia de quem me ensinou a ouvir meus próprios ecos e, com leveza e desprendimento, apenas deixar a música seguir, ocupando espaços, desaparecendo e ressurgindo em outros tons.

Sede

F despertou e tinha sede. Não uma simples sede, saciável com sonhos, paisagens ou galanteios. F tinha sede de algo que beirava o expurgo eterno e o deserto; o grito com todos os tendões e o desejo de transformar-se em chuva; o canto de todos os copos que repousam na mesa após o último gole e a placidez de quem afunda em um lago, fecha os olhos suavemente e apenas aceita. F bebeu sua água lentamente, umedecendo os lábios e criando uma fina e temporária camada de proteção; um dique entre aquelas ilhas externas de autorreferências e seu pequeno santuário de vidro, pólvora e silêncio. Com olhos entreabertos e 3 ou 4 goles, sorriu; engoliu aquele mundo inteiro, que sempre foi apenas seu, e deixou-o repousar no fundo do estômago vazio à espera do próximo e tão precioso intervalo entre os momentos de sono e desencanto.

Calçada

… e, de repente, olhou para a calçada atentamente, concentrando-se nos pequenos seres que habitavam as redondezas das graminhas entre as frestas do cimento rachado, e percebeu que havia mais vida ali que em seus últimos 12 meses. Soltou o ar rapidamente, curvando as costas, como quem se livra de várias sacolas plásticas pesadas que deixam marcas nas mãos, e começou a andar à deriva. Percorreu a rua em declive com passos quase desordenados, como se os dois pés não respondessem ao mesmo centro de comando mas, ainda assim, tivessem ensaiado tantas vezes uma tentativa de fuga que, mesmo com certo esforço, pudessem lembrar da sequência correta para situações de emergências. o ar corria rápido sobre sua pele, circulando por dentro de sua roupa, esfriando o suor e fazendo-o pensar em saltos e vôos; em quedas livres. de esquina em esquina, seus olhos ficavam mais distantes, seus passos mais rápidos, seus pensamentos voltavam cada vez mais no tempo. parou; não, foi parado. o ônibus não conseguiu frear. seu corpo realizou um salto, um vôo. caiu livre. seu rosto encostou, de lado, no chão quente; sua boca ficou entreaberta, com uma expressão quase pateticamente feliz, e seus olhos passaram aqueles últimos segundos admirando toda a beleza daqueles pequenos seres – alheios aos gritos e às deselegantes buzinas – que davam voltas e voltas em torno daquelas graminhas entre as frestas do cimento rachado.

Vejam

Vejam:

são poucos.
Um ruído branco, distante; quase me agrada aos ouvidos.
Parecem andar; daqui apenas giram e giram e giram.
Vão cansar.

Vejam:

surgiram ali também. E ali; e ali.
Manchas vagas, sem laços; quase me enchem os olhos.
Parecem querer se achar; daqui apenas contraem-se e espalham-se.
Vão cansar.

Vejam:

encontram-se. Vêem-se, reconhecem-se.
Das manchas, caminhos; quase distraem meu ócio.
Parecem ir para algum lugar; daqui do alto apenas vagam a esmo.
Vão cansar.

Vejam:

falam. Gritam, de fato.
Discursam, tomam, ocupam; daqui, aguardo os meus.
Vão cansar.

Vejam:

são. Querem; exigem, aliás.
Derrubam, mudam, tornam; daqui, brado.
Em vão.

Poeminha à esquerda

Dos dias que – teimosamente – não findaram
esperei, em rubro definhar, palavras como pássaros.
Floreios vários, que falam de pessoas, ruas e fogos,
lembranças turbulentas dos que rosnaram plácidos.

Em torno de mim, pululam sonhos,
ocos, roucos, loucos – como um beijo cáustico.
Se não grito, não lido, não como,
tampouco esfrio em um choro ácido.

Mas veja… não paro. não nego; não amparo.
O que me resta é luta; é braço; é morte.
Aos que ditam ou que latem: a sorte;
pois de um longo sono, enfim, me separo.

Summud

Fuzis que pendem – habituais como suspiros -,
Procuram, atentos, qualquer rasa esperança.
O gás confronta o desalento e a confiança,
de quem nasce embalado ao som dos tiros.

Os sons – bombas, brados, evoés de um alaúde,
E os cheiros – fumo, suor, skunk e café,
Dançam sobre pedras – trôpegos mas de pé,
Nas memórias de quem resiste existindo: summud.

Encontrei sorrisos – não poucos onde estive.
Meu coração atônito apenas se cala:
Como entender tanta doçura?

Sob o jugo da estrela, observa Handala,
Em sua teimosa esperança – para tantos loucura,
o sonho de uma Palestina livre.

Sintetizaram a dor em laboratório

Imagine só; esses cientistas, viu?

Disseram que foram anos de pesquisa, que misturaram isso com não sei o quê. Sei que disseram que deu certo; e experiência com o tema nunca foi um problema – ela sempre esteve por lá, entre aquelas paredes alvas e desinfetadas. Algo que todo mundo sempre teve: quando não sente no pé, sente no outro. Fogem dela que é um horror; nunca entendi o motivo, pois ela sempre volta, mas enfim… Trabalhos publicados, platéias atentas e peitos estufados, coisa bonita de se ver. Foi, é verdade, sacrifícios aconteceram. Muitos. Mas vocês têm que entender, não é? É pelo bem da Ciência. C-i-ê-n-c-i-a. Aquela Grande Mãe que respeitamos e admiramos. Que nos acolhe quando é necessário e, é claro, só Ela sabe quando é necessário; Ela tem Suas Razões.

Por que escolheram a dor? Porque perceberam que é um experimento facílimo de se reproduzir. Pode-se repetir tantas vezes forem necessárias e sempre se obterá um resultado extraordinariamente perfeito, meticulosamente bem adequado às condições em questão. Além do mais, a dor possui uma infinidade de detalhes e características próprias das espécies diferentes de sujeitos que podem manifestá-la. Isto, nem preciso dizer, está muito bem documentado e catalogado, seguindo os mais restritos padrões de identificação para pesquisas futuras. Também não preciso lembrar que, apesar de tantos esforços para registrar tão ricas informações, os próximos pesquisadores que aproveitarão estas experiências prévias sobre o tema repetirão os testes para verificar se as dores continuam sendo percebidas das mesmas formas que antes. Novos olhares, novas impressões, não é verdade?

Bem, não posso deixar de mencionar o barulho que andam fazendo certos grupos que não entendem a beleza dos trabalhos que estes cientistas fazem. Aliás, sequer compreendem o grau de complexidade para reproduzir-se, em laboratório, algo que parece tão banal. Andam dizendo que precisam parar de perder tempo com esses estudos, de causar tanto sofrimento (olhe, eu nem deveria, mas abro parênteses para lembrar que devemos sempre enxergar este “sofrimento” a partir do olhar bondoso da Grande Mãe Ciência – o que é sofrimento em um momento, pode se transformar em progresso em outro, mas não adianta dizer isso para estas mentes jovens e cheias de ideologias… A Grande Mãe tem suas razões!), e outras coisas mais que prefiro nem comentar. Veja você que um dia destes me disseram “mas, então, por que não sintetizam o amor?”. Ri alto, é claro, diante de uma pergunta tão leviana. Eles não entendem que os cientistas precisam partir dos elementos mais básicos, mais concretos, mais simples, mais próximos (sem criar maiores envolvimentos, é claro!) para depois de muitos questionamentos, de muitos retornos, de muitos testes partir, enfim, para estruturas mais complexas.

E, afinal de tudo, que experiência nós temos com o amor?